sexta-feira, 25 de abril de 2008

O auge do sopro




******Brasília teve seu auge no sopro, novamente. O Ska é um som jamaicano criado nos fins dos anos 50 ínicio dos anos 60 que veio do Calypso e deu origem ao tão famoso reggae de Bob Marley, Peter Tosh entre outros. Artistas esses que o pessoal do Skatalites só consagrou. Explico o, “novamente teve o seu auge no sopro”, pois não distante no tempo Brasília recebeu no Jazz Festival a Duke Ellington Orchestra, que apesar de não ser regida mais pelo grande maestro Ellington que compôs mais de 2000 músicas, estava aqui com alguns de seus músicos que tocavam na formação original da big band.

******No Ska não foi diferente, assim como na música cubana que tem seu principal expoente o Buena Vista Social Club, que depois de virar filme tornou-se ainda mais popular. Como o samba brasileiro,que teve origem do maxixe e dos chorinhos. Pixinguinha, Badden Powel, Jacob do Bandolim e Jackson do Pandeiro são alguns mestres que posso citar repentinamente. Ainda no Brasil, as Bandas de pífanos montadas no Recife no inicio do século, trazem essa semelhança de serem músicas cuidadosamente tocadas por músicos que vieram do povo e tinham o aprendizado de seus instrumentos em orfanatos, igrejas, entre outros ambientes sociais e também em bares, cabarés e nas ruas de Kingston

******O Skatalites é tudo isso, só que da Jamaica. O grupo ainda tem integrantes que vêm da primeira formação. Importantíssimos integrantes como o saxofonista Roland Alphonso e o trombonista e compositor Don Drummond infelizmente já partiram deste mundo. Porém nomes como o da contora Doreen Schaffer, do fabuloso baterista Lloyd Knibbs e do saxofonista Lester Sterling, são parte da formação original do Skatalites, os outros nomes que compõem a banda não ficam atrás, alem do precursor Cedric “IM” Brooks, que é convidado especial, o time é formado por nomes que já fizeram parte de bandas como os Wailers, Steel Pulse, Absynians entre outras bandas que são a origem do reggae. Mas o Skatalites é mesmo, o máximo para o músico do reggae, eles são a maior entidade desse dançante ritmo jamaicano. Interessante foi perceber no show a ecleticidade do público. Todo o pessoal do som que o ska influenciou, como os dreadlocks do reggae, a galera do movimento oi, punks, representantes do skacore, o pessoal do 2-tone, e até mesmo a os topetudos rockabilly, estavam lá, todos em festa, em paz, apreciando fanfarra que vinha sendo promovida pelos originários Skatalites.

******O show começa com Freedom Sounds, uma contagem regressiva de zero a dez e a palavra Freedom e gritada e o baile do ska começa. Os solos eram magistralmente tocados, até o meio do show a cantora Doreen Schaffer não tinha subido ao placo, o Ska da mais pura raiz comia solto, com harmônicas notas sendo sopradas nos mais diversos instrumentos e solos incríveis sendo tirados de todos os instrumentos.

******Destaco o baterista Lloyd Knibbs que quando era o momento de mostrar seu virtuosismo , tirava sons da bateria jamais ouvidos, provando que o músico é igual vinho, quanto mais envelhece melhor fica. Também chamava atenção o Sax alto de Lester Sterling e o Sax de Cedric “IM" Brooks, juntos complementavam um ao outro fazendo-os seus respectivos saxofones soarem harmoniosos e trazendo uma paz que podia ser comparada ao clássico álbum “A love supreme” do mestre do Jazz, John Coltrane. O som, no entanto é outro, o ânimo e o trompete do ex musico do Steel Pulse, Kevin Batchelor e dos sopristas do Skatalites em geral comandam a festa. Quase todos no ambiente dançam e na frente do palco, o frenesi é constante, todos dançando o Jamaica Ska, este irresistível som. Uma roda abrira-se, todos dançam de forma desordenada num êxtase coletivo. Em volta da furiosa roda, todos apreciam os sons dando seus passinhos. O show chega ao seu que auge perto da cantora Doreen Schaffer entrar no palco, a banda então entoá as primeiras notas de seu maior hit, Guns of Navarone, o público pula canta e dança e agita-se muito, todos musicalmente hipnotizados pelos empolgantes e diversos sopros que constroem a melodia dessa pérola da Jamaica.

******A essa altura, hits como o tema de James bond, Latin goes Ska, Ska Fort Rock entre outras pérolas já haviam sido tocadas. A cantora Doreen Schaffer vem ao palco e canta músicas menos aceleradas com letras de amor, momento esse em que todos ficam apreciando as canções de amor que aquela suave voz jamaicana canta. Poesias (canções) essas que podem ser facilmente comparadas as de Cartola, Noel, Adoniran ou João Nogueira aqui no Brasil os as de Ibrahim Ferrer, Compay Segundo ou Omara Portuondo*, na musica cubana ou a de muitos outros da musica afro-americana. Depois de cantar umas cinco musicas entre elas “Thinking of you”, “When i fall in love”, “Sugar, sugar”e a marcante “You're wondering now”, ela puxa “Simmer down”, como um coelho da cartola. O puro ska volta ao palco com a música que consagrou aquele que era pupilo deles na Studio One Records e viria a ser o maior nome do reggae, Bob Marley. Música esta que faz parte de um dos primeiros discos de Marley.

******Quase três horas de show, e muitas perolas, uma atrás da outra e os mestres do ska fazem a contagem novamente, Freedom sounds é tocada de novo, sim, a liberdade na África ou na América é importante. Mais algumas músicas de bis, e acaba o baile do ska, os fãs mais afoitos ainda estão suando de tanto dançar, e depois do show sobra apenas o comentário de um grande amigo:

****** - Eles deviam tocar em cima de um trio elétrico e sair pela rua promovendo a festa, o som é tão dançante que quem passar por eles vai juntar-se e sair dançando.

******Alem desse comentário, o comentário de todos que lá estavam presentes:

****** - Foi o show da vida!



* Omara Portuondo está em turnê pelo Brasil em um show junto com Maria Bethânia. Omara, 77 anos, mostra jovialidade no Palco, canta, dança, bate palmas, como uma criança, mostra ficar mais jovem a cada instante que passa no palco, canta e encanta com sua suave voz famosas canções caribenhas. Bethânia dispensa comentários, sua presença de palco, sua voz cheia de emoção e sua interpretação das musicas, são indiscutíveis, não à toa ela estreou, no teatro opinião no Rio de Janeiro em 1965 para substituir Nara Leão. Projetou-se neste primeiro show com a música Carcará de João do Vale, transformando-a num enorme sucesso. As duas entram juntas no palco Bethânia sai para a cubana cantar sua parte solo, depois volta, elas cantam mais algumas músicas, e a hora de Omara deixar a brasileira encantar o público, até que Omara volta para então elas acabarem o show como começaram juntas no palco. Show este que chega a ser um exagero de tão bom!

3 comentários:

Mariposa de Guadalupe disse...

Queria escrever um texto sobre o show mas estou até hoje em êxtase.
Adorei o seu, compartilho cada palavra.
Foi lindo...

Larissa disse...

Muito legal o seu texto! Toda a descrição passou exatamente como foi lá no show. Na minha opinião, foi o show mais emocionante dos últimos tempos. Até que enfim Brasília começa a entrar na rota musical!!!

Anônimo disse...

Fala, Matheus!
Valeu pelo comentário lá da Revista Foda-se.
Fiquei sabendo que o skatalites vai passar pelo Rio... fudeu!!!
: )
abs,
Zé McGill