quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Carta ao mestre





******Grande poetinha, tantos foram os diálogos que fiz com suas poesias de amor e dor, que hoje penso que a essência do amor está cada vez mais complexa de ser sentida, tocada, cheirada ou degustada. A modernidade versada por Baudelaire e a sua conseqüente globalização traz incríveis encontros e desencontros.

******Algum tempo atrás quando saiu no cinema o filme sobre ti, não tive duvidas, chamei um dos meus grandes amigos, pois sua vida mestre teve um pilar muito grande na amizade. Tive o cuidado de escolher também um dos mais boêmios e companheiros, no filme constatei o quão fora verdadeira sua amizade com Tom, e como vocês divertiam-se na boemia, assim como fazemos por aqui, cada qual nas suas circunstancias, seu tempo. Posso lembrar ainda Toulouse Lautrec que pintou a boemia Parisiense, como nosso mestre Baudelaire, que versou a marginalidade e ainda os paraísos artificiais, ou Você mesmo musicando, poetizando com Tom a boemia carioca. Acho que a arte guia a boêmia ou seria a boêmia que guia a arte? Não sei, só sei que elas andam muito bem juntas.

******Agora falando sobre seu tema predileto, o amor, as mulheres. Vi, me impressionou e emocionou a verdade, a mesma que li em suas poesias e crônicas, a vontade de viver a flor da pele os encontros e desencontros do amor.
******Pasme mestre, quando soube no filme que você tinha casado 12 vezes, pedi a Deus naquele momento para poder viver também tantos e tão intensos amores quanto tu viveste. As características e os males do mundo moderno que foram versados por nosso mestre Baudelaire, mostram-se cada dia mais verdadeiros, intensos e corriqueiros, habituais. O advento da globalização que também e um difícil termo de se esmiuçar, mostra para mim uma paradoxal forma de conduzir o amor nos dias de hoje, é possível ter contato com pessoas que estão distantes, mas não e esse contato que eu preciso.
******Seus 12 casamentos me impressionaram tanto quando estive vivendo as dores do rompimento, do fim. Neste momento pedi a Deus para aquilo tudo passar, mas logo percebi que meus pedidos estavam sendo paradoxais um ao outro, como viver muitos amores sem viver as dores do fim!? Me consolei então nos versos finais do seu soneto ao amor eterno:


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“De tudo, ao meu amor serei atento

Antes e com tal zelo, e sempre e tanto

que mesmo em face do maior encanto

dele se encante mais meu pensamento.

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Quero vive-lo em cada vão momento

e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto

Ao seu pesar ou ao seu contentamento.

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E assim quando mais tarde me procure

quem sabe a morte, angustia de quem vive

quem sabe a solidão, fim de quem ama


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Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinito enquanto dure.”

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******Abri então meu coração, de forma geral tentei apaixonar-me por todas as mulheres que julguei valer a pena, muitas vezes algo atrapalhou-me também, algumas vezes apaixonei-me também pelas que não valiam a pena, mas no fim sempre foram validos os momentos, como é difícil esse tal amor, nada é previsível, não adianta agir com a razão se é na maioria das vezes a emoção que guia nossos atos. Mas juro, juro mestre juro que tentei fazer as coisas darem certo e agora já não sei onde mora meu coração, meu amor. Talvez no Hawaii, Califórnia, Londres, Holanda, Minas, São Paulo, Curitiba talvez por aqui mesmo em Brasília, e nesse caso o “talvez”, porventura mostra-se menos duvidoso. Na verdade essa ânsia por amar me instigou tanto que meu amor esta dilacerado pelo mundo. Sabe, parando pra pensar mestre, não deve ser tão mal assim, amar aqui, lá e acolá.



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"Bilhete a Baudelaire
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Poeta, um pouco à tua maneira

E para distrair o spleen

Que estou sentindo vir a mim

Em sua ronda costumeira

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Folheando-te, reencontro a rara

Delícia de me deparar

Com tua sordidez preclara

No velha foto de Carjat

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Que não revia desde o tempo

Em que te lia e te relia

A ti, a Verlaine, a Rimbaud...

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Como passou depressa o tempo

Como mudou a poesia

Como teu rosto não mudou!" (Vinicius)



3 comentários:

Perdição disse...

Foto acima: Nara Leão com Vinicius
Foto Abaixo: Baudelaiere por Carjat a mesma foto que é citada na poesia de Vinicius que intitula-se bilhete a Baudelaire, tambem postada.

Bassáltamo disse...

bassáltamo arriscando na poesia e perdição na prosa. owwwsadia!

Patrícia Del Rey disse...

Antes de começar, é importante ressaltar que amar é fácil. Não depende de época ou estação do ano. Esse ato está acima das tendências, do caos, do mundo contemporâneo. Para amar, basta ser humano. Simples assim. Na prática a gente tenta complicar, difamar o sentimento, reclamar das amarguras do passado. Mas a realidade é uma só: o amor não depende das outras faces, mas sim do nosso espelho. É como o Tom Zé já cantou, o amor é um verdadeiro egoísta e só pensa em si.

Na verdade, ele está ai dentro, esperando você dar espaço. Fique tranqüilo, vazio, que quando você quiser, o amor vai tomar conta de ti. Falo isso de carteirinha, afinal sou filiada no partido desse poeta para o qual você envia as letras. Assim como Vinicius, eu só vivo por amor. Não sei o número ao certo, mas lembro de cada detalhe. Meus amores de um dia, de quatro anos, de validade indeterminada.

Meus amores me abraçam de sorriso e de tristeza. E como se a minha vida se resumisse em esse eterno balançar entre amar e (des)amar. Uma procura incansável por uma poesia que não pereça com o tempo ou com um querer do outro por uma terceira pessoa. A vontade de se esparramar num sentimento ambíguo que parece escorrer das nossas mãos a cada tentativa de aproximação. Um amor involuntário e incondicional.

Ultimamente acredito que o principal recheio para se viver de amor é a coragem. E é por isso que Vinicius deveria ser eleito o maior herói nacional. Como sobreviver a rejeição de um beijo apaixonado? Ou se atirar de cabeça em algo tão efêmero e fugaz? Como se por disponível depois de uma serie de incontáveis de tombos? Pois como você mesmo relatou, sofrer de amor dói. Rasga o peito. Cobre a alma de lágrimas. Fere até o ultimo centímetro de pele do dedo mindinho do pé.

Muitas vezes, sou visitada por um medo incontrolável do amor. É como se soubesse que depois daquele encontro mágico, entre as duas almas perdidas, algo certamente vai se quebrar. Um jogo estranho de perdedores, onde o ego e o medo são os nossos maiores rivais. Mas não se pode amar sem risco. E também, no caso dos poetas, não se pode viver sem amar.

Por isso, proponho um brinde ao amor. Ora doce, ora amargo. Mas sempre presente na próxima esquina. E que sejamos Vinicius embriagado de coragem e poesia.

beso